Um poema de Miguel Torga

 
O meu perfil é duro, como o perfil do mundo
Quem adivinha nele a graça da poesia?



Há 15 anos morria em Coimbra o grande escritor português Miguel Torga, que conheci por indicação do Fernando, assim como eu, um fascinado pela poesia.

Torga, cujo nome de nascimento era Adolfo Correia da Rocha, foi um homem de temperamento complexo, pouco sociável, cuja obra reflete as apreensões, esperanças e angústias do seu tempo.


Não passarão

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.
Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

in Poemas Ibéricos, 1965

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