Trinta anos passaram. Elis morreu em 19 de janeiro de 1982, sem despedidas, sem nem sabermos porque partiu.
Lembrando dela, lembrei também de um poema de Drummond, escrito para seu grande amigo Pedro Nava que se suicidou sem deixar uma linha sequer sobre a motivação do seu ato extremo. O poema se chama A um ausente, e transcrevo aqui apenas os versos que expressam meus pensamentos de agora.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu...
... o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
Não creio na vida após a morte, e uma das poucas passagens bíblicas de algum significado para mim está em Genesis 3:1:9: No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás.
Somos formados de poeira cósmica, e a ela retornaremos um dia, isso é tudo em que acredito. Fica de nós a obra que realizamos, até que o último que se lembre esteja vivo, por isso Elis permanecerá por muito tempo.
Dois momentos brilhantes e inesquecíveis estão nesses vídeos. Duas músicas que amo de paixão, e que têm em Elis a sua mais perfeita intérprete.
Cais
O bêbado e a equilibrista
Elis Regina - in memoriam
BookCrossing Blogueiro
Faz três anos, numa reunião de condomínio, foi proposto o aproveitamento de uma sala junto à área de lazer, fechada há muito tempo, e que já abrigara uma pequena biblioteca. Meu filho, presente à reunião, sugeriu que a biblioteca fosse reativada. Todos aprovaram, porém ninguém queria a tarefa de fazer o levantamento do acervo, e muito menos ser responsável por ele. Pois bem, entusiasmado com a ideia, ele assumiu sozinho o trabalho; sozinho é força de expressão, ele sabia que poderia contar comigo.
No dia seguinte, descemos para conhecer a sala e ver o que havia por lá. O espaço era razoável, as paredes tinham estantes de aço do chão ao teto, e livros, muitos livros empoeirados, amontoados por todo lado. Assustava olhar aquilo e imaginar o que nos esperava, mas respiramos fundo e fomos em frente.
Começamos tirando os livros e empilhando-os na varanda próxima à sala, num vaivém sem fim. Eram livros bem diversificados: nacionais, estrangeiros, romances, biografias, crônicas, poesias, técnicos, didáticos, coleções, enciclopédias, e até obras raras da literatura portuguesa do século XIX. Sala esvaziada, um dos funcionários veio fazer a limpeza, enquanto saíamos em busca de grandes caixas de papelão para a organização inicial, que seria separar os livros por assunto. Como nosso tempo livre era pouco, levamos quase uma semana só nessa etapa.
A segunda parte do trabalho foi mais demorada ainda: refinar a separação por autor, limpar os livros, colar etiquetas numeradas e anotar as informações correspondentes a cada número. A sala ganhou ventilador de teto, melhor iluminação, mesa com duas cadeiras, e os livros, finalmente, foram arrumados nas prateleiras. Ficou bem aconchegante.
Não posso dizer que a utilização da biblioteca esteja conforme esperávamos, visto que o movimento é pouco em relação ao número de moradores, porém não chega a desanimar. Alguns doam livros que acabaram de ler, a retirada de títulos tem sido regular, estudantes usam o acervo para pesquisas escolares, e a administração destinou uma pequena verba trimensal para a aquisição de livros novos. De uma forma ou de outra, os livros vão mudando de mãos.
Dessa experiência, concluí que o alto custo de um livro não é a principal razão para que se leia tão pouco, mas sim o desinteresse. A leitura parece não atrair boa parte das pessoas, que preferem assistir TV a ter um livro nas mãos. Por outro lado, tenho observado na Internet certa frequência de citações de autores, trechos de livros, máximas, poemas, etc. Sei que a maioria sequer leu as obras mencionadas, e pouco ou nada conhece sobre quem as escreveu, mas considero, apesar disso, um sinal que a semente foi lançada, só falta rega e luz para germinar.
Vivemos novos tempos, nada faz lembrar a calma de quando as horas custavam a passar e a leitura era uma das raras distrações que se tinha. Hoje, para conseguir atrair a atenção das pessoas é preciso marketing e domínio da moderna tecnologia, não importa se o produto é um carro ou um livro. Acontece que não se vê propaganda de livro na Tv, que é a única fontede informação para quase a totalidade do povo brasileiro. E se não "apareceu" na Tv, não existe ou não é importante.
Durante muitos anos a televisão reinou absoluta, ditou o gosto e o comportamento das pessoas, mas isso vem mudando com o uso do computador, que pode ser, entre mil outras coisas, um atraente fator de motivação cultural, como o BookCrosssing Blogueiro, por exemplo. A questão é aprender a direcionar o clique para o lugar certo, e aqueles que têm o privilégio de melhor cultura devem, ajudar os que ainda não chegaram a esse patamar. Nada radical, para não se tornar uma chatice e o tiro sair pela culatra. Assim, como quem não quer nada, um toque aqui, outro ali, sempre com delicadeza, e as coisas vão melhorar!
Faltou falar sobre o livro que passarei adiante: Asas da Loucura (Editora Objetiva), do premiado jornalista americano Paul Hoffman.
É um livro fascinante, que faz um relato detalhado da vida, dos feitos e da personalidade de Santos-Dumont, tendo como pano de fundo as sociedades brasileira e européia, desde 1873 até 1932, respectivamente, anos do seu nascimento e da sua morte.
Como farei isso? Doando para a nossa biblioteca, claro!







