Em paz num amanhecer

O ano já está perto de terminar, o planeta vai completar sua órbita como sempre. É final de primavera no hemisfério sul. O dia amanhece num céu azul enfeitado com nuvens branquinhas, umas aqui, outras ali. De onde estou, fico encantada olhando suas formações que a brisa dessa manhã logo se encarrega de desmanchar. Passarinhos pousam cantando na varanda, o resto é silêncio. 

Houve um tempo em que os dias pareciam mais longos que agora. Hoje, por mais que a gente se organize, 24 horas são insuficientes para as tarefas de cada jornada. Descansamos pouco, acordamos ainda com sono, nos agitamos o dia todo, de repente é noite novamente, e exaustos nos damos conta do quanto deixamos de cumprir. O que ficou em falta vai se acumulando numa lista enorme que nunca conseguirmos zerar. Pior, vamos passando batido por tudo, sempre na superficialidade, sempre sem tempo.
Tensão, angústia, ansiedade, consequências desse descompasso. E eu me pergunto a razão de vivermos desse jeito insensato... Será mesmo pelo pão nosso de cada dia, cada vez mais difícil de conseguir, ou nos tornamos incompetentes para administar a vida? As duas coisas, talvez.

Se pensarmos que antes, num passado próximo, tínhamos tempo de sobra, mesmo sem as facilidades tecnológicas que agora nos poupam de muitas tarefas e nos permitem resolver quase tudo numa tela de computador ou celular, veremos o tamanho do caos onde nos metemos.
Por que não nos sobra tempo ao invés de faltar?! Qual o sentido desse tipo de vida?!

Acho que vem daí eu gostar tanto das silenciosas madrugadas, as horas calmas do meu pensar. São elas que me fazem estar em paz nesse amanhecer.

BookCrossing Blogueiro - 5ª Edição

A poesia entrou verdadeiramente na minha vida no meu aniversário de 14 anos, quando ganhei de presente Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke. Até então, os poemas que eu conhecia eram os clássicos do currículo escolar, e todos me causavam tédio, fossem líricos, épicos ou dramáticos. Constrangimento, era o que sentia quando o professor me escolhia para ler algum deles em voz alta diante da classe. Certa vez coube a mim ler o enorme poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, do qual só lembro a última estrofe:

Assim o Timbira, coberto de glória,
Guardava a memória Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E à noite nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Tornava prudente: "Meninos, eu vi!".

Não tinha como gostar disso naquela época, algo tão distante da minha realidade urbana, mais ainda para uma garota da zona sul do Rio de Janeiro, que começava a despertar para as letras das músicas de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento, João Bosco e até, confesso, Roberto e Erasmo. Parava por aí meu conceito do que poderia ser poesia.

Numa tarde chuvosa de sábado, quase um mês depois do meu aniversário, sem nada de interessante para fazer, peguei o livro do Rilke para dar uma olhada e passar o tempo. Com o olhar de hoje, melhor seria dizer que o livro me pegou... e para sempre...


Cartas a um jovem poeta ― Briefe an einen jungen Dichter ― reune dez cartas que Rilke escreveu a Franz Xaver Kappus, um jovem que desejava ser também um poeta e lhe pedia conselhos. Não há poemas no livro, ele é prosa pura, onde Rilke expressa suas opiniões sobre muitos aspectos da vida. Cada carta pode ser lida isoladamente, sem que seja necessário obedecer à cronologia. É desses livros que temos sempre por perto, que nos remete à reflexão cada vez mais profunda conforme o relemos. Foi ele que me fez querer conhecer os poemas de Rilke e despertou minha paixão pela poesia.

Não tenho mais o livro que me foi presenteado porque emprestei e não foi devolvido. Comprei outros ao longo dos anos para presentear amigos, e sempre tenho um comigo. É esse que vou deixar numa pracinha em frente à faculdade aqui na minha rua, onde os alunos costumam se reunir depois das aulas.
Espero que ele desperte o gosto da boa leitura em quem o encontrar.

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Elis Regina - in memoriam

Trinta anos passaram. Elis morreu em 19 de janeiro de 1982, sem despedidas, sem nem sabermos porque partiu.
Lembrando dela, lembrei também de um poema de Drummond, escrito para seu grande amigo Pedro Nava que se suicidou sem deixar uma linha sequer sobre a motivação do seu ato extremo. O poema se chama A um ausente, e transcrevo aqui apenas os versos que expressam meus pensamentos de agora.

Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu...

... o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Não creio na vida após a morte, e uma das poucas passagens bíblicas de algum significado para mim está em Genesis 3:1:9: No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás.
Somos formados de poeira cósmica, e a ela retornaremos um dia, isso é tudo em que acredito. Fica de nós a obra que realizamos, até que o último que se lembre esteja vivo, por isso Elis permanecerá por muito tempo.

Dois momentos brilhantes e inesquecíveis estão nesses vídeos, músicas que amo de paixão, e que têm em Elis a sua mais perfeita intérprete.

CAIS


O BÊBADO E A EQUILIBRISTA