A flor branca ilumina a escuridão da paredemundo -
um toque de delicadeza em meio à brutalidade.


21.1.10

Devia morrer-se de outra maneira - José Gomes Ferreira



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (veem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

Imagem: Mehmet Ozgur


17.1.10

Um poema de Miguel Torga

 
O meu perfil é duro, como o perfil do mundo
Quem adivinha nele a graça da poesia?



Há 15 anos morria em Coimbra o grande escritor português Miguel Torga, que conheci por indicação do Fernando, assim como eu, um fascinado pela poesia.

Torga, cujo nome de nascimento era Adolfo Correia da Rocha, foi um homem de temperamento complexo, pouco sociável, cuja obra reflete as apreensões, esperanças e angústias do seu tempo.


Não passarão

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.
Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

in Poemas Ibéricos, 1965


30.12.09

Para todos os meus queridos - The show must go on!



Apesar de tudo, continuar é preciso...

Freddie Mercury, para mim, a voz mais espetacular do Século XX, o maior de todos os intérpretes, além, é claro, de ser o vocalista da minha banda preferida, Queen.




29.12.09

É disso que eu gosto

Victor Humberto Biazutti, guiatarrista, produtor, convida:

- "Olá AMIGAS e AMIGOS,
Ouçam PEDRO OLEARE e ROGER BEZERRA em HERE´S THAT RAINY DAY, em Happy Hour no WUNDERBAR KAFFEE.
Música lindíssima com dois grandes músicos.
E é tudo trabalho autêntico de todos nós, naturalmente incentivados por VOCÊS, público seleto que participa dessas realizações com a presença no pontinho simpático da Praia do Canto.
Não tem ensaio e às vezes nos conhecemos na hora, como é o caso do PEDRO OLEARE, rapaz novo mas já grande guitarrista.
Percebam que ROGER está lendo, tocando essa canção pela primeira vez...

* O Pedro, para quem não sabe, é filho do meu amigo Oleari, do Blogui Don Oleari.




27.12.09

Para Silvana Bianchi, avó de Sean

Poucas vezes usei este espaço para expressar minha opinião sobre qualquer fato que não me diga respeito. Gosto de postar músicas, literatura e artes em geral, enfim, coisas que fazem a vida mais bela e delicada.

No entanto, mesmo sem me manifestar aqui, ando cansada da grande mídia, do blablabá politicamente correto, do ufanismo hipócrita, do sentimentalismo teatral, do superficialismo da informação, da tendenciosidade, da ausência de lógica, e de todas as pragas que vão distorcendo o raciocínio dos preguiçosos mentais. A impressão que tenho é que as pessoas abrem mão de ter sua própria opinião e adotam como verdade tudo que compõe as manchetes sem nenhum aprofundamento na notícia. Alguns por falta de cultura, outros por leviandade.

A gota d'água para mim foi o caso do menino Sean. De um lado, uma importante e poderosa família da área jurídica brasileira, de outro, um pai americano de classe média que luta há cinco anos para ter seu filho de volta.

Venho acompanhando essa história pela Internet desde que o pai da criança decidiu escancarar na mídia o seu drama pessoal. Faz muito tempo já. Ironicamente esse homem se chama David, como o do mito, o que derrotou o gigante Golias. Durante anos, David lutou em desigualdade com os poderosos. Durante anos, David foi privado de conviver com Sean. Durante anos, foi desrespeitado pela mãe de seu filho, pela família dela, e pela família do homem com quem ela se casou aqui no Brasil depois de uma "quase fuga" dos USA.

A mãe de Sean foi a principal responsável por todo esse imbroglio, mas nunca saiu uma linha sobre ela na mídia, ou melhor, saiu sim, "ela morreu no parto da filha que teve com o marido brasileiro", o tal da família rica e poderosa. Na cultura latina quem morre vira santo, ou "boníssima alma", tão comum nos obituários, mesmo que a bondade e o falecido nunca tenham sido apresentados. Então, como esperar que alguém tenha a coragem de publicar que foi a mãe do menino a causadora de tudo que vem acontecendo?

Pessoas casam, separam, casam outras vezes, isso não provoca mais espanto ou censura. Se não tiverem filhos, é como um namoro que acaba, se tiverem, a coisa complica bastante. Como ninguém se separa porque tudo vai bem no casamento, as mágoas existem de ambas as partes, às vezes até ódio. É quase regra os filhos ficarem no centro do fogo cruzado na batalha que os pais travam pela guarda deles e pela partilha de bens.

Até quando vai existir a idiotice de que "mãe é mãe" e pai é "segunda categoria"? Acaso todas as mães são a oitava maravilha do mundo? E o que dizer de um pai que cria muito bem o seu filho sem a presença da mãe? São tantos os exemplos, basta olhar em volta.

No caso de Sean, a mãe está morta, e a avó assumiu o lugar dela na disputa pela criança. Essa senhora passou dos limites depois do embarque do neto na companhia do pai. Teve o desplante de classificar a sentença como "desumana", de posar de vítima, chorando em público o tempo todo por "um" Natal sem o neto, e de acusar o governo pela decisão que ela chama de "moeda de troca" em razão de acordos comerciais Brasil-USA.

Menos, senhora, menos, por favor! Seja justa! Pare para pensar! Enquanto a senhora esteve com seu neto nos cinco últimos anos ‒ Natal incluído - o pai não teve essa mesma alegria. Como a senhora acha que David se sentiu na noite de Natal em cada ano que esteve privado da convivência com o filho? A senhora chora na mídia por um único Natal. David vem chorando por cinco anos... A senhora já criou seus filhos, tem uma neta brasileira, órfã de mãe, dedique-se a ela, deixe Sean ter a chance de conviver com o pai, é direito dos dois tentarem reestruturar a relação que lhes foi roubada pela sua filha.
Sean tem avós também nos Estados Unidos, a senhora lembra disso? Eles tem menos direitos que a senhora? Eles amam o neto também, e faz cinco anos que passam o Natal longe dele... a saudade não é exclusividade sua... a senhora começou a chorar por Sean faz pouco tempo... eles tem chorado por muito tempo...

Não seria bem melhor para o seu neto que as duas famílias vivessem em harmonia?

Ainda está em tempo de corrigir o erro que a sua filha cometeu.


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